Em dezembro de 2004, converso pela primeira vez com Ana Costa. Eu, um tanto temerosa, procurava as melhores palavras para falar do meu desejo. Na época, eu buscava co-orientação para o meu trabalho de mestrado. Depois de falar sobre minhas intenções de escrita e de pesquisa, ela, calmamente, entregou-me o Seminário 9, de Lacan, e me disse: “Você poderia ler as primeiras aulas deste seminário e voltamos a falar na semana que vem?”. Eu estava de viagem para passar o natal com minha família no Rio Grande do Sul. Acredito que aquele foi um dos natais mais alegres que passei; foram quatro dias entre panetones, leituras, família e um desejo enorme de que, no retorno, se efetivasse uma parceria, o que só agora posso nomear desta forma.

Desde então e a partir da orientação, muitos outros trabalhos com Ana Costa se efetivaram. Em alguns anos estávamos bastante próximas, em outros, um pouco mais distantes, mas mantendo um laço transferencial de trabalho e de aprendizagens – hoje percebo a importância de seu ensino em minha clínica.

O primeiro livro que li de Ana Costa foi Corpo e Escrita:  relações entre memória e transmissão da experiência, de 2001, publicado pela editora Relume Dumará. Lembro do quanto fiquei tomada pelas marcas desta escrita que até hoje ressoam em mim. Depois li Tatuagens e marcas corporais: atualizações do sagrado, de 2003; A ficção de si mesmo: interpretação e ato em psicanálise, de 1998; Sonhos, de 2006 e Clinicando, de 2008. Desta última publicação de Ana estive bastante próxima, pois além de assistir alguns de seus seminários, pude também trabalhar nas transcrições das aulas.

Mesmo que eu não tenha acompanhado cronologicamente seus escritos, ia, com minhas leituras – em um ir e vir –, semelhante a agulha que perpassa o fio no tecido, costurando os conceitos por ela trabalhados e deles fazendo os meus desenhos: as minhas colchas de retalhos, as minhas tessituras.

Hoje, em dezembro de 2016, já envolta do espírito natalino, onde novamente a família se reúne com panetones em torno da mesa (e desta vez em minha casa), tenho sob meus olhos, em uma leitura que me absorve: Litorais da Psicanálise – um dos mais belos trabalhos de psicanálise que li nos últimos tempos. Quando falo ‘belo’ é na tentativa de colocar em palavras aquilo que brilha e, ao mesmo tempo, se deixa ler.

Nele encontro novamente conteúdos do seminário ‘A identificação’, de Lacan, no entanto, permeado pelas palavras de Ana Costa, onde, ela mesma, vai costurando os conceitos psicanalíticos e deixando entrever (entrescutar) a experiência de uma clínica.

Se chamo este livro de ‘trabalho’ não é no sentido de algo feito, ou de anos em torno de um tema até sua conclusão, mas sim de uma escrita em que o trabalho da clínica é seu mote e seu ponto de ancoragem. Um ponto de ancoragem que transita entre a clínica e a teoria psicanalítica como uma fita moebiana em que o dentro e o fora estão na mesma passagem – no mesmo caminhar.

Este é um traço dos escritos de Ana Costa: a transmissão de uma experiência clínica psicanalítica pelos escritos.

Obrigada, Ana, por mais este importantíssimo trabalho e merecidamente premiado na 58º Jabuti de 2016: LITORAIS DA PSICANÁLISE. São Paulo: Escuta, 2015.

 

Florianópolis, dezembro de 2016.

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