Dizem que os livros nos encontram, mas acredito que o encontro se dá pela busca relacionada ao desejo.

Semana passada, escutando uma gravação a respeito da nova tradução dos textos de Sigmund Freud (Obras Incompletas, da Editora Imago), chamou-me atenção o que o coordenador do evento falava em relação a um dos palestrantes e seus trabalhos… Como, na maioria das vezes, estou com papel e lápis na mão, anotei e, no dia seguinte, ávida de leitura, fui atrás da indicação anotada. Eis que me encontro com o belíssimo livro Estilo e verdade em Jacques Lacan, de Gilson Iannini, publicado pela Editora Autêntica em 2013.

Ainda na livraria, abro-o e começo a leitura. Logo, fico me perguntando: como não havia acontecido antes este ‘encontro’? Mas, como o tempo do inconsciente é atemporal, achei melhor seguir na leitura.

Chamou-me atenção, de início, a palavra empreitada e talvez tenha sido ela, repetida tanto ao que se refere à obra de Lacan, ou a obra mesma, a desencadeadora desta escrita.

Lembro que, quando menina, escutava muito o termo empreitada, pois ele era utilizado pelos agricultores descendentes de italianos quando se dirigiam a um trabalho árduo, mas prazeroso de ser realizado e que deve ser feito em determinado período como, por exemplo, arar um pedaço de terra ou colher o trigo antes da chuva.

É isso que sinto ao estar com o livro de Gilson Iannini: um trabalho árduo, mas prazeroso (sim, estar com o livro, pois, desde então, estou às voltas com a leitura). Fazia tempo que não me deparava com um material de tamanha grandeza.

São 374 páginas de uma escrita sobre o ensino de Jacques Lacan em uma relação com o ensino de Sigmund Freud, ‘desembrulhando’ os conceitos e tornando-os ‘escutáveis-palpáveis’. Sim, palpáveis, pois a materialidade de sua escrita nos faz ‘tomar’ aquilo que ainda se mostrava difícil – utilizo a palavra tomar no sentido de tomar corpo, fazer nosso. Isso talvez aconteça pela própria escrita de Gilson Iannini em que a forma mesma apresenta e trabalha os conceitos.

Não estou com isso dizendo que é uma escrita simples e fácil, mas é uma escrita que desperta no leitor (pelo menos em mim) o desejo de produção – de novas empreitadas. É uma escrita que, com todo seu rigor, possibilita ao leitor um entremeio como um beiral de janela ou uma soleira de porta onde se pode, com uma pequena torção, ou uma meia-volta, deslizar-passear e, neste passeio, muitos encontros.

Encontramos diante de nós, como escreve Christian Dunker ao se referir ao livro, “cruzamento de perspectivas, combinações de fontes, mistura entre exegese e crítica, tensão entre clínica e política, presença e disseminação da possibilidade de pensar para além da reprodução metodológica de formas pré-constituídas.” Mas, acima de tudo, encontramos na escrita de Gilson Iannini o pensamento e a teoria de Sigmund Freud e Jacques Lacan.

Bom, sigo com meu encontro, desejando que você também o encontre.

 

Psicanalista

Escrito e publicado na página de Gilson Iannini em 2014.

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