A palavra “rendição” esteve muito distante de meu vocabulário. Hoje, no entanto, por necessidade intrínseca, busquei compreendê-la, incorporá-la – trazê-la para meu corpo sendo que somos feitos de linguagem.

Do latim rèndère, com influência de prendère, traz também em sua etimologia renda, rèndita. Pode-se, a princípio, trilhar sobre estes dois caminhos, lembrando que o retorno à origem é o trajeto inverso até sua criação/invenção.

Encontramos, então, neste trajeto, o verbo render que significa dar como lucro; produzir; atingir o montante de, ascender. Porém, ao fazer a dobra, nos deparamos com sua outra face que quer dizer: fazer cessar a resistência, vencer, submeter; fatigar, alquebrar; mover a um sentimento; comover, sensibilizar. Do verbo intransitivo: dar de si, ceder; estalar, rachar-se; quebrar-se; dobrar-se, pender. Diz também do ofertar, dedicar, substituir, ficar no lugar de, entregar-se.

Indo um pouco mais adiante, neste caminho inverso rumo à origem, deparo-me com a renda; tecido de malhas abertas e com textura em geral delicadas, cujos fios entrelaçados formam um desenho.

Penso no pescador em que o laço do nó faz do fio uma rede.
Retomo as palavras em que redes de letras se entrecruzam rumo ao dizer e chego à “rendição”, não em seu sentido, mas como ato, ou seja, como efeito de render-se – entregar ao cosmos as possibilidades. Não esquecendo, no entanto, o que nos lembra a psicanálise: “não basta desejar para ser, é necessário tornar-se”.

 

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